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Existe uma fome de viver atravessando o novo álbum da Pitty. Ela aparece no desejo de abandonar o que perdeu o sentido, na disposição para enfrentar as consequências das próprias escolhas e na possibilidade de tentar novamente. Em “PITTY”, essa vontade encontra uma sonoridade apoiada no pop rock, com guitarras de timbres densos, riffs incisivos e espaço para diferentes intensidades. Ouvimos o trabalho antecipadamente em um encontro com a cantora, que acompanhou a reprodução das músicas cantando, dançando e interagindo com o público presente no Hifi Community, nesta quinta-feira (15).
O sexto álbum de inéditas chega em 16 de outubro, pelo selo Deck, sete anos depois de “Matriz” (2019). Nas 13 faixas, Pitty assina letras, melodias e riffs, além da criação e direção do projeto. Ela divide a produção musical com Rafael Ramos. A participação em diferentes etapas ajuda a contextualizar um trabalho que ela vem apresentando como um recomeço artístico.
No anúncio do lançamento, Pitty afirmou sentir que estava fazendo seu primeiro disco novamente. As composições começaram a surgir no fim de 2025, antes mesmo de um álbum estar nos planos, recuperando a experiência de escrever sozinha no quarto. Na primeira audição, essa disposição para recomeçar aparece principalmente na maneira como as letras enfrentam a dor sem abandonar o desejo de seguir vivendo.
“Sobremesa” estabelece uma referência sonora que reaparece ao longo do repertório. A presença das guitarras e a comunicação direta da canção apresentam um caminho que o disco retoma, com variações de textura e intensidade. Dentro do conjunto, a faixa funciona como uma introdução à urgência que atravessa o trabalho: há uma vontade de experimentar, escolher e deixar de adiar.
“Armadura” dá continuidade ao percurso com uma construção próxima do pop rock. Embora não esteja entre os momentos mais marcantes desta primeira escuta, tem interesse dentro da sequência e ajuda a estabelecer a linguagem do álbum. Logo depois, “Desobediente” produz uma das entradas mais fortes do repertório. O sitar indiano antecede a chegada das guitarras carregadas, criando um contraste que chama atenção imediatamente. A passagem explora a diferença entre as texturas e dá à faixa uma identidade própria.
As guitarras são um ponto de ligação entre as músicas, mas o disco encontra algumas de suas melhores possibilidades quando altera os elementos ao redor delas. Em “Madame”, a aproximação com a eletrônica cria outra dinâmica para os riffs. O encontro acrescenta uma nova camada à sonoridade e amplia o repertório de recursos do álbum, sem afastá-lo de sua base roqueira.
Essa abertura dialoga com o que Pitty declarou sobre deixar as necessidades de cada composição conduzirem o processo, acolhendo tanto passagens dançantes quanto momentos de silêncio e melancolia. Em “Caminhada”, o andamento mais lento oferece espaço para uma carga emocional diferente. A mudança de ritmo permite que o disco respire e dá outra dimensão à vontade de viver que percorre suas letras: seguir em frente também exige tempo para lidar com o que aconteceu.
Já “Amiga,” assume a forma de uma conversa dirigida a alguém. A letra soa como uma carta, com um interlocutor definido e uma ironia que encontra apoio no pop rock. Essa maneira de se dirigir ao outro aproxima a canção de situações reconhecíveis, deixando espaço para que o ouvinte identifique seus próprios destinatários.
Em “Álbum de Casamento”, a perspectiva é de atravessar uma experiência dolorosa e seguir sem arrependimentos. A resiliência aparece como um movimento de elaboração, uma forma de superar o que machucou sem ficar preso à experiência. Essa leitura ganha contexto na declaração da cantora que, embora o trabalho esteja ligado ao momento que vive, ela espera que o público assuma aquelas letras e encontre nelas suas próprias histórias.
“Prazer, Universo” recupera o impacto imediato do rock com uma abertura de guitarra marcante, seguida pela bateria. A letra aborda o retorno das ações, numa perspectiva próxima da ideia de karma. A entrada instrumental dá força a esse discurso e coloca a faixa entre os momentos que mais chamam atenção logo no primeiro contato.
Na reta final, “Cuidada” se destaca pela interpretação vocal e pela presença da guitarra. A letra sugere uma relação de cuidado que, nesta escuta, pode ser associada à figura materna. A força dos vocais contribui para a dimensão afetiva da faixa e prepara uma passagem emocional para o encerramento.
“Nó” conclui o disco com a possibilidade de tentar de novo. A escolha conversa com o percurso das músicas anteriores: depois do desejo, da ironia e do enfrentamento da dor, ainda existe disposição para uma nova tentativa. É um fechamento coerente com um álbum tão interessado no movimento de continuar.
Nesta primeira audição, “PITTY” encontra seus momentos mais fortes nos contrastes de “Desobediente”, na combinação de eletrônica e guitarras de “Madame” e na entrada incisiva de “Prazer, Universo”. Algumas faixas deixam uma impressão menos imediata, como “Armadura”, e a recorrência sonora apresentada em “Sobremesa” estabelece uma familiaridade que acompanha boa parte da escuta. Dentro dessa unidade, as mudanças de textura e de andamento fazem diferença. São elas que dão formas distintas à fome de viver presente no disco, dede a vontade de aproveitar à coragem de recomeçar.
A matéria reúne primeiras impressões de uma audição antecipada do álbum, realizada em um evento com a presença de Pitty.
Fonte: 89fm